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3184831 Ano: 2023
Disciplina: Português
Banca: CONTEMAX
Orgão: Câm. Iguaracy-PE

O robô

Um dia ele chegou em casa com um robô. O robô era baixinho, redondo e andava sobre rodinhas. A mulher achou engraçado, mas sentiu uma ponta de apreensão. Para que um robô em casa?

- Olhe só - disse o marido. E, dirigindo-se ao robô, disse: - Seis!

O robô foi até o quarto do casal e de lá trouxe os chinelos do homem e a sua suéter de ficar em casa. Voltou para o quarto levando o paletó, a gravata e os sapatos.

- Mas isso é fantástico - disse a mulher, sem muita animação.

- Ele está programado para só obedecer à minha voz - explicou o homem.

Estava tão entusiasmado com o seu robô que a mulher decidiu não lembrar a ele que naquele dia eles faziam dez anos de casados. Ele continuou:

- É um código. De acordo com o número que eu digo, ele sabe exatamente o que fazer.

- Sim.

- Os números vão de 1 a 100 e obedecem a uma sequência que corresponde, mais ou menos, à importância relativa das tarefas. Entendeu?

- Entendi.

Se ela não tivesse dito nada, seria a mesma coisa, porque o homem não a escutava. Olhava para o robô como um dia, dez anos antes, olhara para ela. Pelo menos ela ficou sabendo que, numa escala de 1 a 100, os chinelos que lhe trazia todos os dias quando ele entrava em casa correspondiam a 6.

Depois do jantar, quando ela começou a limpar a mesa, ele a deteve com um gesto. Disse para o robô:

- Sessenta e um!

O robô rapidamente tirou os pratos da mesa, botou tudo dentro da máquina de lavar pratos, ligou a máquina e voltou para aguardar novas instruções.

Mais tarde, quando o marido disse: "Que tal um joguinho de cartas?", ela levantou-se, alegremente, para pegar o baralho. Logo descobriu que o marido falava com o robô.

- Dezoito!

O robô correu na frente dela, pegou o baralho, pegou o bloco de papel e um lápis, arrumou a mesa para o jogo e ficou esperando. Ele sentou-se para jogar cartas com o robô. Ela perguntou:

- Posso jogar também?

- Este jogo é só para dois - disse o marido.

- Você pode ir se deitar, se quiser.

- Você não vai querer mais nada?

- O que eu precisar o robô pega.

Do quarto, ela ficou ouvindo o marido dizer, a intervalos, "vinte e seis" ou "trinta e um", e o ruído do robô, na cozinha, pegando cerveja, salgadinhos, etc.

Tomou uma decisão.

Levantou-se e foi até a sala. De camisola.

- Querido...

- Você não estava dormindo?

- Não.

- Nós fizemos muito barulho?

- Não.

- Então o que é?

- Tem uma coisa que eu faço que esse robô não faz.

- O quê?

- Uma coisa de que você gosta muito.

- Você quer dizer...

- Arrã - sorriu ela.

- É o que você pensa - disse ele. E, para o robô: - Um!

Aí o robô correu até a cozinha e começou a reunir os ingredientes para fazer uma musse de chocolate.

Grupos feministas a apoiaram ruidosamente durante o julgamento, com toda a razão.

VERISSIMO, Luis Fernando. A mãe de Freud, Círculo do livro.

Analisando o último parágrafo do texto, depreende-se que o narrado da história:

 

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