Texto
Ainda há juízes no Brasil
O lugar de um cidadão, seja ele moleiro, seja senador,
é definido em lei — não diante das câmaras.
é definido em lei — não diante das câmaras.
Em 1745, o todo-poderoso Frederico II, rei da Prússia, mandou construir, em Potsdam, nos arredores de Berlim, o famoso castelo de Sans-Souci, que ficaria pronto dois anos depois. Déspota esclarecido, amigo de escritores e artistas, exerceu atração sobre sábios de várias nacionalidades, especialmente franceses. Voltaire foi um dos que freqüentaram sua residência.
Um de seus áulicos, porém, mais arbitrário que o governante a quem servia, ainda que sem as mesmas luzes, quis espantar para longe da vizinhança um modesto moleiro para que o pequeno empresário e seu moinho não ofendessem a paisagem que cercava a construção. O intendente tinha a seu favor a lei informal, jamais promulgada, mas vigente em tais circunstâncias, que o político brasileiro Pedro Aleixo tanto temeu quando ousou imaginar o que faria o guarda da esquina, e não o ditador ou seus ministros, com todos os poderes do Ato Institucional n.º 5.
Parodiando Camões, nessas horas “uma nuvem que os ares escurece / sobre nossas cabeças aparece. E tão temerosa vinha e carregada / que pôs nos corações um grande medo.” Dando a entender que falava em nome do rei, a autoridade foi fazendo propostas em cima de propostas para que o moleiro se mudasse dali, ensejando assim a destruição do moinho. Nenhuma delas surtiu o efeito desejado.
O intendente passou, então, às ameaças, que, entretanto, não assustaram o proprietário cioso de seus direitos. A querela chegou aos ouvidos de Frederico II e o monarca resolveu conversar com aquele homem que lhe pareceu tão corajoso. Perguntou-lhe qual o motivo de ele não ter medo de ninguém, nem do rei. A resposta do moleiro foi resumida em uma frase que se tornou célebre, depois freqüentemente invocada em situações em que o Judiciário é chamado a limitar o poder dos governantes: Ainda há juízes em Berlim.
Deonísio da Silva. In: Época, n.º 155, 7/5/2001, p. 114 (com adaptações).
Julgue os itens a seguir, em que, nas reescrituras ou inferências, as frases se mantêm fiéis às idéias do texto.
I Frederico II era um monarca que, para se tornar mais instruído, convidava artistas e escritores para freqüentar seu palácio.
II Um dos áulicos, ainda que vivesse com menos conforto que seu governante, não queria vizinhos pobres.
III Um trecho de Camões é usado como recurso para enfatizar, na narrativa, o clima de temor que a opressão provoca “nessas horas”.
IV Segundo o texto, o Judiciário pode limitar o poder dos governantes.
V Da associação do título (e do comentário abaixo do título) com a frase do moleiro pode-se inferir uma crítica negativa a fatos recentes bastante conhecidos ocorridos no Brasil.
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