Texto para a questão
“Absorvia-a no leite preto que me amamentou; ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância”, escreveu Joaquim Nabuco sobre a escravidão que conheceu como menino, em um engenho pernambucano. “Por felicidade da minha hora, eu trazia da infância e da adolescência o interesse, a compaixão(A), o sentimento pelo escravo — o bolbo que devia dar a única flor da minha carreira”. Não há quem não se arrepie ao ler como o jovem Nabuco descobriu que a tepidez(B) do que parecia a ordem natural das coisas, de menino mimado pelas mucamas, era na verdade brutal e amarga. Era menino ainda, estava sentado no patamar da escada superior da casa onde havia sido criado pela madrinha, quando surgiu um jovem de corpo castigado. Lançando-se a seus pés, o escravo pediu que fosse comprado, salvando-o, assim, do senhor que o supliciava(C). “Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição, com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava”, descreveu Nabuco. Nasceram ali as sementes que o levaram a, mais tarde, autodesignar-se representante do “mandato do escravo”, explicado com palavras de impressionante contemporaneidade(D): “Delegação inconsciente da parte dos que a fazem, interpretada pelos que a aceitam como um mandato a que não se pode renunciar”.
À luz da história no que tem de mais estéril — a entediante versão mil vezes repetida do 13 de maio e seus antecedentes —, é difícil reproduzir a força avassaladora que o movimento contra a escravidão despertou em todo o país. O que o Brasil teve de pior — o comércio, a servidão, a exploração e a indizível(E) violência mil vezes cometida contra seres humanos — gerou o que o Brasil de melhor conseguiu oferecer, sob a forma da luta abolicionista. Foi uma história de homens tomados de paixão por uma causa justa e, entre eles, nenhum mais apaixonado do que o jovem pernambucano de 34 família ilustre, pai, avô e bisavô senadores do Império, com muito berço e quase nenhum dinheiro, que se tornou o que de mais parecido poderia existir no século XIX com uma celebridade ao estilo contemporâneo, aclamado, paparicado e adorado.
Vilma Gryzinski. Herói nacional, para sempre. Internet: <veja.abril.com.br> (com adaptações).
Mantém o sentido e a correção gramatical do texto a substituição de