TEXTO 01
O texto seguinte servirá de base para responder às questões de 01 a 10.
Quando a minha esposa Beatriz perdeu a mãe, há seis anos, lembro que brigou com a funerária porque a equipe não tinha posto a roupa separada para a cerimônia. Não aceitou, não deixou passar. Bateu o pé, a boca, para que honrasse o planejado.
Era para ser o melhor vestido. Aquele vestido creme de que Clara tanto gostava, que não causava erro, que a incentivava a rir com volúpia e desenvoltura com as mangas soltas.
Pode parecer bobagem, mas, para quem está enterrando a pessoa predileta de sua vida, todo detalhe é decisivo. Seria a última vez que enxergaria a sua mãe. Seria a imagem derradeira, a que arderia os seus olhos de lágrimas quentes para sempre.
Beatriz preparou os cabelos, a maquiagem, como se fosse mãe de sua mãe. Foi uma dedicação extrema de espelho, devolvendo, num único ato, todos os momentos em que Clara fez meticulosamente as suas tranças na infância e na adolescência.
Era o último punhado de areia escoando na ampulheta. O resto dos grãos do café do tempo entre as duas, preso no coador de pano.
Ela trocou de papel com a mãe. Era a protetora, a que tirava alguma mancha da veste com a saliva, a que fixava a franja com os dedos, a que não se importava com o vexame do apego.
Velar é embalar o morto até dormir, sussurrando em seus ouvidos uma canção de ninar de conhecimento mútuo. É mais do que zelar pela aparência, é se preocupar em ser leal com os desejos de quem parte.
CARPINEJAR. Depois é nunca. 1ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021. (Fragmento).
"Bateu o pé, a boca, para que honrasse o planejado." No contexto do trecho, o verbo honrar pode ser substituído, sem alteração de sentido, pelo verbo: