Magna Concursos
2550162 Ano: 2018
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: Pref. Foz Iguaçu-PR

Instrução: Todas as questões da prova de Língua Portuguesa referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.

Nossa imaginação precisa da literatura mais do que nunca

  1. Vamos partir de uma situação que grande parte de nós já vivenciou. Estamos saindo
  2. do cinema, depois de termos visto uma adaptação de um livro do qual gostamos muito. Na
  3. verdade, até que gostamos do filme também: o sentido foi mantido, a escolha do elenco foi
  4. adequada, e a trilha sonora reforçou a camada afetiva da narrativa. ............, então, sentimos
  5. que algo está fora do lugar?
  6. O que sempre falta em um filme sou eu. Parto dessa ideia simples e poderosa, sugerida
  7. pelo teórico Wolfgang Iser em um de seus livros, para afirmar que nunca precisamos tanto ler
  8. ficção e poesia quanto hoje, ............ nunca precisamos tanto de faíscas que ponham em
  9. movimento o mecanismo livre da nossa imaginação. Nenhuma forma de arte ou objeto cultural
  10. guarda a potência escondida por aquele monte de palavras impressas na página.
  11. Essa potência vem, entre outros aspectos, do tanto que a literatura exige de nós, leitores.
  12. Não falo do esforço de compreender um texto, nem da atenção que as histórias e poemas exigem
  13. de nós – embora sejam incontornáveis também. Penso no tanto que precisamos investir de
  14. nós, como sujeitos afetivos e como corpos sensíveis, para que as palavras se tornem um mundo
  15. no qual penetramos.
  16. Somos bombardeados todo dia, o dia inteiro, por informações. Estamos saturados de
  17. dados e de interpretações. A literatura – para além do prazer intelectual, inegável – oferece algo
  18. diferente. Trata-se de uma energia que o teórico Hans Ulrich Gumbrecht chama de “presença”
  19. e que remete a um contato com o mundo que afeta o corpo do indivíduo para além e para
  20. aquém do pensamento racional.
  21. Muitos eventos produzem presença, é claro: jogos e exercícios esportivos, shows de
  22. música, encontros com amigos, cerimônias religiosas e relações amorosas e sexuais são
  23. exemplos óbvios. ............, então, defender uma prática eminentemente intelectual, como a
  24. experiência literária, com o objetivo de “produzir presença”, isto é, de despertar sensações
  25. corpóreas e afetos? A resposta está, como já evoquei mais acima, na potência guardada pela
  26. ficção e a poesia para disparar imaginação. Mas o que é, afinal, a imaginação, essa noção
  27. tão corriqueira e sobre a qual refletimos tão pouco?
  28. Proponho pensar a imaginação como um espaço de liberdade ilimitada, no qual, a partir
  29. de estímulos do mundo exterior, somos confrontados (mas também despertados) a responder
  30. com memórias, sentimentos, crenças e conhecimentos para forjar, em última instância, aquilo
  31. que faz de cada um de nós diferente dos demais. A leitura de textos literários é uma forma
  32. privilegiada de disparar esse mecanismo imenso, ........... demanda de nós todas essas reações
  33. de modo ininterrupto, exige que nosso corpo esteja ele próprio presente no espaço ficcional com
  34. que nos deparamos, sob pena de não existir espaço ficcional algum.
  35. Mais ainda, a experiência literária nos dá a chance de vivenciarmos possibilidades que, no
  36. cotidiano, estão fechadas nós: de explorarmos essas possibilidades como se estivéssemos,
  37. de fato, presentes. E a imaginação é o palco em que a vivência dessas possibilidades é encenada,
  38. por meio do jogo entre identificações e rejeições.
  39. Resta pensar ............... é tão importante encenar possibilidades. Em primeiro lugar,
  40. como o escritor Bernardo Carvalho destacou recentemente, estamos vivendo uma confusão
  41. generalizada entre realidade e representação artística, em que esta última vem sofrendo
  42. sanções violentas, por se haver perdido a medida da diferença entre o real e a retomada desse
  43. real em obras artísticas. Carvalho inicia seu texto afirmando, muito acertadamente, que rejeitar
  44. ou proibir as representações ficcionais do horror que há no mundo é sintoma de um desespero
  45. – o desespero causado pela impossibilidade de eliminarmos o horror real. Além disso, diz ele
  46. mais adiante, recusar a legitimidade ou a existência de determinadas obras de arte denota o
  47. temor ambivalência dos nossos próprios desejos, sentimentos e certezas.
  48. Aprendemos desde cedo que, para que haja vida em sociedade, não podemos pôr em
  49. prática, na vida cotidiana, toda essa ambivalência. Um dos poderes da obra de arte é,
  50. precisamente, o de oferecer uma experiência cuja própria premissa é a existência de paradoxos
  51. – afinal, a ficção cria um mundo que, fora dela, não existe, mas no qual precisamos acreditar.
  52. A imaginação entra em cena para ampliar as contradições, sem, contudo, tornar a experiência
  53. incoerente: estamos, agora, no domínio da associação livre e espontânea entre o que lemos, o
  54. que lembramos, o que sabemos e sentimos. Idealmente, ao lermos uma obra literária, não
  55. caímos na confusão entre a realidade e a representação dela, e sim nos conectamos a uma
  56. realidade cotidianamente inacessível, por meio da interação entre o que o texto propõe e a
  57. nossa imaginação. Nesta, acessamos aqueles que somos, mas também aqueles que poderíamos
  58. ser – maravilhosos ou terríveis.

(Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/22/opinion/1519332813_987510.html - texto adaptado)

Assinale a alternativa em que a palavra ‘que’ seja classificada da mesma forma que na linha 01.

 

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