Mágoa de vaqueiro
Ele ficara mudo, olhos apalermados, virado o rosto para a volta da estrada, de cuja orla subia um nevoeiro luminoso, que o mormaço solar irisava. Ali permaneceu horas a fio, o sol já dardejando a prumo, indiferente à canícula, mãos túrgidas engalfinhadas na barba intonsa, boca contorcida numa visagem estranha de mágoa, a olhar longe, muito longe, para além das colinas longínquas e do céu anilado.
À tarde, o eco dum aboiado rolou pelo fundo da várzea, ondulando dolentemente de quebrada em quebrada, num despertar intenso de saudade ...
Eram boiadeiros que lá passavam, na estrada batida. O vaqueiro velho não saiu então como de costume, ferrão em punho, perneiras e guardapeito, escorreito e desempenado, no rosilho campeador, a dar a mão de ajuda àqueles forasteiros que lá iam, demanda das terras distantes e das feiras ruidosas dos sertões mineiros d'além-Paranaíba.
Continuava encostado no cômoro dos cupins, mão no queixo, olhando extático; somente, agora, a cabeça bronzeada pendia mais flacidamente sobre o peito de vaqueano, e o olhar com que via era inexpressivo e desvidrado, desmedidamente aberto, estampando na retina empanada a visão pungente do sertão em festa, todo verde, e a orelha à escuta, longe, das notas derradeiras da canção nativa. Morrera ouvindo os ecos que lá iam do aboiado, a rolar, magoadamente, de quebrada em quebrada.
Hugo de Carvalho Ramos. Tropas e boiadas. Internet: <www.dominiopublico.gov.br>.
Glossário:
irisava: iluminava
túrgidas: inchadas
intonsa: não aparada
rosilho: animal de montaria
cômoro: elevação na terra
Tendo como referência o fragmento acima, do conto Mágoa de Vaqueiro, de Hugo de Carvalho Ramos, publicado em 1917, julgue o item a seguir.
A morte do vaqueiro coincide com o fim da noite, de acordo com as indicações temporais dadas no trecho apresentado.