Leia o texto a seguir para responder à questão:
Humilhação social: um problema político em Psicologia
A visão dos bairros pobres parece, às vezes, ainda mais
impiedosa do que a visão de ambientes arruinados: não são
bairros que o tempo veio corroer ou as guerras vieram abalar,
são bairros que mal puderam nascer para o tempo e para a
história. Um bairro proletário não é feito de ruínas. Ocorre
que ali o trabalho humano sobre a natureza e sobre a cidade
parece interceptado. As formas de um bairro pobre não figuram como destroços ou como edifícios decaídos, realidades
fúnebres, mas em que podem restar impressionantes qualidades arqueológicas: em suas linhas corroídas e em suas
formas parcialmente quebradas pode persistir a memória de
uma gente.
No bairro pobre, menos de ruína, o espetáculo mais parece feito de interrupção: as linhas e as formas estão incompletas, não puderam se perfazer. Faltam os instrumentos, faltam os materiais que suportariam o trabalho humano para a
configuração de um mundo, para a fisionomia de uma cultura.
Para a carpintaria, pode faltar madeira ou formão, um
martelo, um alicate. A alvenaria é sempre adiada, interminável: a compra de tijolos, areia, massa e uma janela às vezes
consumiria o salário de mais de cinco meses. Como pensar
no tamanho de uma pequena horta se, quando não falta o
quintal, faltam as sementes e o adubo? As rodas do samba
ou os forrós contentam-se às vezes com um só pandeiro. As
procissões vão sem velas e nas festas do padroeiro pode
faltar a imagem do santo.
Eis o que ouvimos de Ecléa Bosi: a mobilidade extrema e
insegura das famílias pobres, migrantes ou nômade-urbanas,
impede a sedimentação do passado. Os retratos, o retrato de casamento, os panos e peças do enxoval, os objetos
herdados, toda esta coleção de bens biográficos não logra
acompanhar a odisseia dos miseráveis. São transferidos, são
abandonados ou são vendidos a preços irrisórios. A espoliação econômica manifesta-se ao mesmo tempo como espoliação do passado. E ainda: “... não há memória para aqueles a
quem nada pertence. Tudo o que se trabalhou, criou, lutou, a
crônica da família ou do indivíduo vão cair no anonimato ao
fim de seu percurso errante. A violência que separou suas
articulações, desconjuntou seus esforços, esbofeteou sua
esperança, espoliou também a lembrança de seus feitos”.
(José Moura Gonçalves Filho, “Humilhação social:
um problema político em Psicologia”, Psicologia USP. Adaptado)
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