LEIA o trecho a seguir.
A PAIXÃO SEGUNDO G. H. – Fragmento
Clarice Lispector
[...]
Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me
engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.
[...]
Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a
vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade.
Entender é uma criação, meu único modo. Precisarei com esforço traduzir sinais de telégrafo – traduzir o
desconhecido para uma língua que desconheço, e sem sequer entender para que valem os sinais. Falarei
nessa linguagem sonâmbula que se eu estivesse acordada não seria linguagem.
[...].
São Paulo: ALLCA XX/Scipione Cultural, 199. p. 14-15.