Leia o poema a seguir:
Caranguejo
Caranguejo feiíssimo, monstruoso,
que te arrastas na areia como a miniatura
de um tanque de guerra…
Gosto de ti, caranguejo,
Câncer meu padrinho nas folhinhas,
pois nasci sob as bênçãos do teu signo zodiacal…
Teu par de puãs cirúrgicas oscila
à frente do escudo lamaçento
de velho hoplita.
E mais oito patas, peludas, serrilhadas,
de crustáceo nobre,
retombam no mole desengonço de pés e braços
muito usados, desarticulados,
de um bebê de celulóide.
Caranguejo sujo, desconforme,
como um atarracado Buda roxo
ou um ídolo asteca…
És forte e ao menor risco te escondes
na carapaça bronca,
como fazem os seres evoluídos,
misantropos, retraídos,
o filósofo, o asceta, o cágado,
o ouriço, o caracol…
Caranguejo hediondo, de armadura espessa,
prudente desertor…
Para as luas do amor quero aprender contigo,
quero fazer como fazes, animalejo frio, que,
tão calcariamente encouraçado,
só sabes recuar…
Referência: João Guimarães Rosa. Magma. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 42.
A partir da leitura do poema, assinale a alternativa que apresenta uma interpretação consistente com a construção de sentido estabelecida pelo eu lírico.